Entrevista com Miriam Duailibi publicada na revista EcoSpy Brasil

17/10/2007

São mais de 50 projetos de meio ambiente e educação, além do programa de reposição florestal permanente, que plantou mais de 10 milhões de mudas nos últimos anos. Hoje, com 15 anos de vida e graças à credibilidade que conquistou, o Instituto Ecoar deixou de ser ONG e tornou-se Oscip – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. Significa que a organização passa por auditoria e é credenciada no Ministério da Justiça. Muitos de seus projetos são apoiados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Ministério do Meio Ambiente. Tudo isso funciona como uma espécie de selo de qualidade. Dá para entender por que o Ecoar tornou-se referência em vários projetos, que, aliás, são tantos que fica difícil explicar tintim por tintim cada um deles. Quem duvida deve ler esta entrevista com a coordenadora-geral do instituto, Miriam Duailibi, que aos 52 anos é uma das principais ativistas ambientais brasileiras.

A longa conversa ocorreu na sede do instituto, no centro de São Paulo, justamente num dia terrível para os paulistanos que ainda não conquistaram a famosa "qualidade de vida": era greve do metrô, o trânsito estava caótico, a poluição queimava as narinas e o estresse emanava pelo ar. Apesar do caos, é um alento saber que existem pessoas realmente empenhadas em transformar as cidades e o mundo num lugar melhor. Essa é a bandeira do Instituto Ecoar, que atua em várias frentes: cidadania, educação ambiental e projetos florestais. A entidade mantém mais cinco escritórios: Pilar do Sul, Capão Bonito e Ibiúna, no interior paulista; e Rio de Janeiro e Macaé, cidade fluminense. "Hoje, temos cerca de 60 funcionários, entre técnicos e educadores, além dos contratados temporariamente para projetos específicos", diz Miriam. "O crescimento do Ecoar mostra como a preocupação ambiental deu um salto enorme de dez anos para cá. Essa é a grande oportunidade para que a humanidade largue a letargia e se mobilize para voltar a ter uma razão de viver." Conheça, a seguir, mais sobre Miriam e o Instituto Ecoar.

EcoSpy: O problema do aquecimento global parece que, finalmente, tocou as pessoas. O que o Ecoar tem feito nesse sentido?

Miriam: Trabalhamos com esse tema há dez anos, quando pouco se falava do problema. Elaboramos um projeto precursor, em 2001, chamado Sou Dono do Meu Nariz, com participação de artistas como Toquinho, Selton Melo, Luciano Huck e Sabrina Parlatore. A idéia era mobilizar as pessoas para a questão do efeito estufa. Cada novo filiado doava 30 reais para o Ecoar plantar dez árvores e assim capturar o gás carbônico produzido por cada um. Estima-se que em um ano uma pessoa produza cerca de 1 tonelada de gás carbônico. Plantando, além de cada um fazer sua parte, conscientizava-se a população sobre o aquecimento global. Mas, como era um assunto pouco debatido, não tivemos perna para continuar a campanha. Infelizmente, a questão se agravou muito e hoje o cálculo de emissões per capita em países como os Estados Unidos chega a 20 toneladas por ano.

EcoSpy: A senhora tem sido chamada para falar desse assunto em palestras?

Miriam: Atualmente, essa é a questão que mais tenho falado em palestras por estar associado a tudo: cidadania, educação e meio ambiente. Para fazer o público entender o que é efeito estufa, costumo exemplificar que é como se uma pessoa com pouco frio fosse coberta com muitos cobertores. Ela passa a se sentir sufocada em vez de confortável. Assim funciona o acúmulo de gases na atmosfera. Essa camada de gás que ajuda a manter a temperatura média da Terra em 15 graus Celsius cairia muito se parte dos raios de sol não fosse mantida na atmosfera pelo efeito estufa natural. No entanto, quando emite uma quantidade muito grande de gases, a natureza tem dificuldade de absorvê-los e o "cobertor" passa a ficar muito grosso, provocando o efeito estufa. Há 150 anos a emissão de gases vem crescendo vertiginosamente. Cientistas dizem que, mesmo se hoje as emissões chegassem a zero, a natureza levaria mais de 200 anos para absorver os gases já excedentes. E as empresas precisam se mexer; afinal, já existem tecnologias e conhecimento para colocar em prática atitudes socioambientais corretas.

EcoSpy: O que mais o Ecoar tem feito para lidar com o aquecimento global?

Miriam: Não entramos nessa onda de neutralizar os gases de efeito estufa produzidos por empresas, apenas pelo simples cálculo do volume de gás carbônico que elas emitem e pelo plantio de árvores suficientes para seqüestrar esses gases. Na maioria das vezes, esse é um trabalho superficial, pois não estimula a mudança real de atitude. Muitas empresas fazem isso como marketing ou para "limpar a consciência". Nossa proposta, chamada CO2 Soluções Ambientais, é bem mais ampla. Além de estimular mudanças de atitudes que levam à redução de emissões, por meio de um programa de educação ambiental, desenvolvemos um cálculo de neutralização dessas emissões específico para o Brasil. Nos Estados Unidos, a fonte de energia é termoelétrica, nós temos hidrelétricas. Essas diferenças energéticas contam muito. Também criamos um sistema de monitoramento on-line do plantio. Com o modelo do Ecoar é possível ainda quantificar a emissão produzida em casa, na escola, na comunidade etc. É aí que entram os voluntários, chamados de Embaixadores do Clima. Eles mostram como cada pessoa pode adotar ações no dia-a-dia de modo a tornar parte da solução e não só do problema das mudanças climáticas. Nossos projetos de plantio e conservação de florestas nativas estão sempre acoplados à educação e à redução de emissões.

EcoSpy: Quais projetos florestais o Ecoar mantém?

Miriam: Somos credenciados pelo Ibama e pelo Departamento Estadual de Proteção dos Recursos Naturais, órgão da Secretaria do Meio Ambiente, para desenvolver no estado de São Paulo o Programa de Reposição Florestal Obrigatória. Pouca gente sabe que essa lei assegura o replantio das árvores cortadas para o abastecimento de empresas que utilizam lenha, carvão ou tora. Portanto, pizzarias, churrascarias, padarias, olarias, entre outras, são obrigadas a repor o equivalente a seu consumo. Para reflorestar, recorrem a uma associação florestal credenciada, como a Ecoar, na qual pagam uma taxa e garantem o cumprimento da lei.

EcoSpy: Por que o Ibama delegou essa função às associações florestais?

Miriam: Quando essa lei entrou em vigor, o Ibama recebia a taxa. Mas, como não se sabia para onde ia esse dinheiro, surgiram associações criadas por várias ONGs, que são credenciadas pelo Ibama. A Ecoar é uma delas e está habilitada a recolher a taxa, responsabilizando-se pelo plantio das árvores correspondentes. Os recursos arrecadados são destinados à produção de mudas para replantio.

EcoSpy: Como o projeto de Reposição Florestal da Ecoar se tornou referência?

Miriam: Nossa proposta principal é abastecer o mercado com pinus e eucalipto, pois, com maior oferta dessas madeiras no mercado, o preço cai, beneficiando as próprias empresas contribuintes. Ao mesmo tempo, diminui o desmatamento das matas nativas remanescentes. Percebemos que em São Paulo os eucaliptos plantados eram destinados à fabricação de papel e celulose. Então criamos um programa, em parceria com empresas e órgãos públicos, que cadastra pequenos agricultores familiares e oferecemos a eles mudas e assistência técnica periódica para que o plantio tenha êxito. Quando chegar o período de corte da árvore, o lucro será apenas dele. Isso ajuda a abastecer o mercado, aumenta a renda do agricultor e faz com que ele permaneça no campo. Como também usa essa lenha para consumo próprio, o agricultor se compromete em não mexer na mata e a repovoá-la com mudas de plantas nativas, que também cedemos. Ensinamos também a recuperar a mata ciliar (vegetação nas margens de rios, lagos, represas e nascentes). Já são mais de 200 famílias e 500 produtores rurais cadastrados no programa, no qual se planta 1 milhão de árvores por ano, entre espécies nativas e exóticas. Desde o início do projeto, foram plantadas 10 milhões de árvores.

EcoSpy: De onde vêm as mudas das árvores?

Miriam: De dois viveiros da Ecoar, nos municípios de Pilar do Sul e Capão Bonito. Por causa da alta tecnologia, juntos, produzem 2 milhões de mudas por ano, entre espécies nativas e exóticas. Nos viveiros há mais de 250 matrizes de espécies raras da mata Atlântica. Bem mais do que mantém o Departamento Estadual de Proteção dos Recursos Naturais, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), cujas matrizes ficam em torno de 30. Para tal, montamos uma rede de coleta de sementes, ensinando a população rural a coletá-las no campo e na mata. É um trabalho difícil porque tem toda uma técnica. Contamos com a parceria do MMA e de algumas empresas privadas, como a Votorantim.

EcoSpy: Exercer a cidadania é outro pilar da Ecoar. Qual é a importância?

Miriam: Queremos educar para evitar o imobilismo, a inércia. As pessoas reclamam, mas não fazem quase nada para exercer a cidadania. Por isso, ensinamos a participar. Por exemplo, há 22 comitês de bacias hidrográficas, nos quais se discutem a utilização e as melhorias do manejo desses recursos naturais. Os comitês são formados por representantes de municípios, de órgãos estaduais e de entidades da sociedade civil. Esse espaço democrático, também conhecido como "o parlamento do povo", é importantíssimo, mas é subutilizado. A gente que é ambientalista imagina que todo mundo sabe disso, mas quando representantes de associações comunitárias participam, o que é raro, vemos que eles não têm conhecimento técnico para discutir as questões em pauta, muito menos para reivindicar algo.

EcoSpy: Além dos programas de educação, como a Ecoar atua em empresas?

Miriam: Promovemos cursos, seminários e fazemos consultoria. Vamos à empresa para mostrar que o custo de melhorias socioambientais garante a própria sustentabilidade da empresa. Levo exemplos para provar como é possível investir e lucrar com ações corretas. Há o caso da Philips, que faz diversos investimentos nessa área. Lá, costuma-se dizer que a empresa está investindo para o futuro. Cito ainda a Petrobras e a Natura. Mostro que não basta reciclar lixo, tratar efluentes ou apoiar alguma iniciativa do entorno, como muitas empresas imaginam. A questão ambiental é bem mais complexa, mas toca no coração de todo mundo porque nós somos parte intrínseca do ambiente.

EcoSpy: A Ecoar mantém um trabalho voltado para a Agenda 21. O que é?

Miriam: A Agenda 21 surgiu na Rio-92, no qual 170 países discutiram a situação do mundo. Eles decidiram fazer uma Agenda para o Século 21, a fim de promover ações para garantir um futuro melhor para o planeta, respeitando o ser humano e o meio ambiente. A idéia é que cada comunidade, bairro ou vila construa uma Agenda 21 do seu pedaço. Tal como uma agenda normal, na Agenda 21 do Pedaço são marcados os compromissos de cada dia, o planejamento da estratégia para as mudanças necessárias e as ações para solucionar os problemas do lugar. Vamos lançar um livro com nossa metodologia da Agenda 21 do Pedaço, que inspira várias iniciativas no Brasil e é usada pelo Ministério da Educação nas escolas. A Agenda 21 do Pedaço se concretiza como um verdadeiro programa de desenvolvimento local sustentável.

EcoSpy: Como vocês aplicaram a Agenda 21 do Pedaço nas comunidades do entorno do Oleoduto Barueri–Utinga, o Obati, na Grande São Paulo?

Miriam: Obati é um poliduto da Petrobras com 50 quilômetros de extensão e atravessa oito municípios: Barueri, Osasco, São Paulo, Diadema, Taboão da Serra, São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul, além de cruzar as principais rodovias do estado – Castelo Branco, Raposo Tavares, Régis Bittencourt, Imigrantes e Anchieta. Por causa da ocupação desordenada, a população carente passou a viver sobre os oleodutos, somando hoje 1 milhão de moradores. Sobre o oleoduto, existe uma faixa de proteção, como uma rua de cerca de 6 metros de largura, que estava sendo usada indevidamente pela população, colocando a vida das pessoas em risco. Nessa lugar, queimava-se lixo e usava-se os marcos de cimento que demarcam a área como pilares para construir barracos. A empresa levantava muros para proteger a faixa, mas eles eram quebrados. Ciente de que era preciso resolver o problema sem remover a maior parte dos moradores, a Petrobras nos convidou para realizar um projeto ao qual demos o nome de Convivência e Parceria. Em parceria com o Instituto Crescer, mobilizamos a população, mostramos os riscos, discutimos o compartilhamento da responsabilidade entre empresa, comunidades e poder público e transformamos um problema aparentemente insolúvel numa missão das comunidades locais. Com financiamento da Petrobras, elas construíram a Agenda 21 do Obati, elaborando 18 projetos de melhoria socioambiental para a região.

EcoSpy: Como a Agenda 21 do Pedaço foi aplicada entre os moradores?

Miriam: Ajudamos a organizar a Agenda 21 do Obati. Junto com os moradores, recuperamos a história do lugar. Não importa se é uma área carente ou empresa, conhecer as pessoas que moram e trabalham lá é um dos primeiros passos. Ao entender o contexto do ambiente, as pessoas se envolvem e criam o senso de "pertencimento", porque só cuidamos de algo quando sentimos que fazemos parte dele. Montamos grupos, levantamos os problemas, os sonhos e trabalhamos alternativas de melhoria, que iam desde a questão do lixo e do saneamento até ensinar qual órgão público deve ser cobrado. Tecemos redes de responsabilidade, criando a consciência de união para que os moradores continuem a melhorar o lugar. Hoje, existem hortas e jardins nas áreas de proteção do oleoduto e parques.


Matéria publicada na edição nº 11 - ano 2 - Setembro/Outubro de 2007
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